Estamos a matar nossos índios

Editorial

Vital Sousa, editor da Vigiai

No título deste arrazoado resolvi colocar “a matar” ao invés de matando, tentando me identificar com os nossos escritores lusófonos, Fernando Pessoa, Mia Couto e José Eduardo Agualusa. A literatura de Portugal, de Moçambique e de Angola são fascinantes. Compreender o português falado de Angola é fácil, difícil é o de Moçambique e de Portugal. Quem consegue entender o que diz o técnico do Flamengo, Jorge Jesus? Mas se o Flamengo for campeão, viva Jorge Jesus!

Estou no Mato Grosso do Sul de nossos índios. Férias recomendadas pelos médicos, com urgência…entre chipa paraguaia e pintado de verdade (criado nos rios) degustando das maravilhas do estado, mas… guavira só em novembro, nada é perfeito mesmo! Terra dos meus pais e dos meus avós paternos; os maternos vieram de Portugal, mas, os bisavós paternos, índios de verdade! Boa, muito boa, diria a guria linda.

E fiquei pasmo com tantos índios bébados nos bares e praças… e neles e em nós correndo o sangue dos nossos ancestrais. Os índios são os genuínos donos das riquezas das terras e da natureza ímpar e que hoje lhes são negadas.

Como se fosse numa guerra, eles foram expulsos e as suas riquezas agora estão com outros donos… e toda a desgraça dos homens brancos com as bebidas em demasia, a ganância, a falta de respeito pelo outro e pela natureza.

Isto me faz lembrar da guerra do Paraguai. O Paraguai, a maior nação industrializada da América do Sul da época, queria uma saída para o mar… o caminho mais fácil era o de comprar um pedaço do Chile, assim como o Brasil fez, comprando o Acre da Bolívia, mas, não, eles queriam aquele estreito entre Buenos ;Aires e Montevídeo, sonhando com algumas províncias argentinas, mais o Mato Grosso e o Rio Grande do Sul, sonho alto demais. O Paraguai com os seus 80 mil homens, preparados para guerrear, entendia que seria possível ganhar do Brasil, mas, a união do Brasil com Uruguai e Argentina acabaram com o Paraguai, impondo uma derrota, que resultou na morte de mais de 300 mil paraguaios, destruindo a nação que ficou muito tempo como uma espécie de província do Brasil, e perdendo mais de 40% do seu território, inclusive as Cataratas do Iguaçu, hoje o segundo ponto turístico do Brasil. Por causa da política da ganância a grande nação paraguaia hoje é uma das nações mais pobres da América do Sul. Dinheiro e poder continuam sendo o grande mal dos seres chamados de humanos.
A chamada “Grande Guerra” para os paraguaios, continuou silenciosa entre os brasileiros e os povos indígenas, agora “brasileiros brancos” X “brasileiros índios”. É uma história longa, e com poucos dados, consistentes. Estima-se que dos 5 milhões da época da descoberta do Brasil, hoje existem menos 900 mil, espalhados em 305 etnias, muito diferentes entre si.

Escravidão, guerras, doenças, etc e etc são as razões do extermínio dos nossos índios.
Mas é no Mato Grosso do Sul onde as disputas por terra são mais acirradas. A maior nação indígena do estado, os Guarani-Kaiowá, vivem em conflito há anos com os fazendeiros, cada grupo dizendo ser os proprietários das terras em questão, mas, como não reconhecer os legítimos direitos dos indígenas?

Apesar de ser, sabidamente, um dos corredores das drogas oriundas do Paraguai para o Brasil inteiro e depois para todo mundo, Mato Grosso do Sul não vive o drama social das drogas nasruas, praças e esquinas das cidades brasileiras, grandes e pequenas, com muito crack. O crack é hoje a maior doença social do Brasil. Mas o estado vive a tristeza de ver os seus índios pelos

cantos, bêbados, são os chamados índios não aldeados, “aculturados”, até de “índios urbanos”.

Estive em Aquidauana, uma cidade que dizem ser de índios e fazendeiros. Vi poucos índios e quase nenhum fazendeiro. Mas os índios que vi estavam todos bêbados. A droga deles é a cachaça dos brancos. Eles dormiam nas cadeiras, aos montes, os que estavam acordados, falavam coisas confusas, fruto do estado ébrio.

Estamos a matar nossos índios como os portugueses fizeram para colonizar as terras brasileiras, com um novo método: cachaça.

“A pesquisa também afirma que o excesso de bebida aumenta o risco de doenças cardiovasculares. A cada 12,5 unidades de álcool consumidas acima da recomendação máxima do sistema de saúde (ou seja, 12,5 após as 14 unidades semanais), o risco de ter um acidente vascular cerebral (AVC) aumenta em 14%; de hipertensão, 24%; de ataques cardíacos, 9%, e de aneurisma fatal da aorta, 15%.” Os dados de uma pesquisa da BBC aponta que quem “consome mais de 18 drinques por semana pode ter quatro a cinco anos a menos de vida.” Um correspondente da Folha em Manaus, Ari Fontoura, apontou que os índios estão vivendo menos, a média de vida deles é de 42,6 anos, mas, em algumas regiões pode chegar a ser de 24,4 anos.” O contato com o branco tem sido o grande malefício para a população indígena.

Triste de constatar que 1/3 dos miseráveis do mundo são indígenas, e na verdade, são eles os donos do ouro e da prata e das principais reservas minerais do Brasil. Existem controvérsias sobre a bacia de petroléo da Venezuela, que dizem ser a maior do mundo, com o petroléo que existe em Roraima, mas, é inegável que o nióbio, um dos metais mais ricos do mundo, tem a maior reserva no Brasil, no Morro dos Seis Lagos, no Amazonas, em terra dos índios ianomami. Muito bom saber sobre o nióbio, “Oficina da Net” publicou um excelente artigo em https://www.oficinadanet.com.br/post/13705-o-que-e-niobio-e-como-ele-pode-enriquecer-o-brasil
Pensar nos índios do Mato Grosso do Sul nos remete, necessariamente, aos índios de Miranda e Dourados, também. Existem nações em outras cidades, vale ressaltar que quando se pontua Aquidauana (46 mil habitantes) se está pontuando a vizinha Anastácio (25 mil habitantes), quando eu atravesso o rio Aquidauana me lembro de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), rio São Francisco, ouça a canção no link abaixo, imortalizada por Maria Bethânia: https://www.youtube.com/watch?v=rC2UtPQmFeM – Se o poeta Caetano Veloso estivesse aqui se inspiraria muito mais compondo versos da singeleza do rio, da leveza do ser e das duas belas cidades, irmanadas, no portal do Pantanal, patrimônio da humanidade e onde os índios nasceram e querem ficar…

O Ciúme

Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme
O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta
Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê
Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme

Os paraguaios com a sua guerra dissiparam as aldeias terenas, os índios foram para o mato, a guerra acabou, os vitoriosos, os brancos brasileiros, tomaram a terra dos índios. É a lei do mais forte, sempre. Da ganância e do poder.

Estamos a matar nossos índios…sem poesia, sem suas terras, sem suas caças, sem suas pescas, sem…é um sem fim. Brasil devolva aos índios o que é deles, de direito, eles não precisam provar mais nada. É necessário rediscutir a tutela dos índios e os tais usos e costumes da comunhão nacional, em tempos de internet nas aldeias… Dai a César o que é de César, e aos índios, o que é deles.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *