Josué Mello Salgado: MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO: CONVERGÊNCIA

MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO: CONVERGÊNCIA

Josué Mello Salgado


“Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da reconciliação” 2 Coríntios 5:17-19.
“Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem, e apresenta a tua oferta” Mateus 5:23-24.

INTRODUÇÃO: "O motivo que leva muitos a entrar no pastorado é Cristo. E o motivo que leva muitos a deixá-lo são os conflitos", assim inicia Alfred Poirier a introdução do seu "Guia Bíblico para a Solução de Conflitos na Igreja" (Alfred Poirier. O Pastor Pacificador. Um Guia Bíblico para a Solução de Conflitos na Igreja. - São Paulo: Vida Nova, 2011(Copyright © 2006 "The Peacemaking Pastor"), pg. 11). No primeiro capítulo do livro ele apresenta o seu testemunho pessoal: "Um belo dia, acordei, olhei no espelho e vi um pastor de rosto cansado e alma extenuada. Eu havia entrado no pastorado com um ardente desejo de seguir, em minha vida e prática pastoral, os mesmos passos do que a igreja no passado chamava de cuidado de almas (cura animarum ou cura d'almas). Mas naquele dia fatídico descobri que eu já não me importava mais com coisa nenhuma. Estava farto de conflitos, do pecado, de fofocas, das ameaças, das divisões e discórdias dentro da igreja" (...) ."Problemas os mais complexos começam a surgir e então você se pergunta: "O que eu faço, meu Deus? Eis o tipo de pergunta que os pastores se fazem todo o tempo. Por acaso já passou por sua cabeça sair da igreja em que está hoje para pastorear uma igreja com menos problemas? Alguma vez já orou para que pessoas difíceis de sua congregação simplesmente sumissem da igreja? (...) Há momentos em que, em meio a tantos conflitos, chegamos a perguntar se Deus de fato nos chamou para o ministério. E de novo você se pergunta: o que eu faço, meu Deus?" (op.cit., pg. 19-20).

“Toda relação interpessoal é potencialmente conflitiva” ensinava Merval Rosa, e por isso não é estranho que a convivência na igreja produza conflitos interpessoais, e entretanto a existência de conflitos na igreja mau ou não resolvidos é sinal de que ainda não compreendemos a verdadeira natureza da igreja.

Escrevendo sobre demandas judiciais entre crentes em 1 Coríntios 6 o apóstolo Paulo diz: “Na verdade, já é uma completa derrota para vós o terdes demandas uns contra os outros” (vs.7). Na versão contemporânea diz assim: “Batalhas judiciais (entre os membros da igreja) são manchas na comunidade”.

A arte de liderar é a arte de administrar conflitos! Mas, os Seminários e os cursos teológicos não nos preparam para enfrentá-los e administrá-los biblicamente. A gestão de conflitos na igreja não é uma área para a qual somos devidamente preparados! Muitos pastores adoecem ou deixam prematuramente os pastorados por causa de conflitos com crentes, com líderes da igreja, com as esposas! Fui consagrado ao Ministério Pastoral em 12.06.1982. Se você fez as contas, vou completar 30 anos de ministério pastoral batista em junho desse ano. Foram 22 anos e 2 meses pastoreando quatro igrejas; em média 5,5 anos para cada igreja (fora os 5,5 anos de doutorado na Alemanha)! Não foram poucos os conflitos vividos, as lágrimas vertidas e as noites mau dormidas... Eu imaginava que o problema dos conflitos estava nos outros e não em mim... De fato muitos conflitos foram provocados pelos outros, mas muitos outros foram provocados por minha incapacidade de gerir os conflitos e por uma certa arrogância profética. Sim! até começar a ler o livro O Pastor Pacificador eu justificava alguns conflitos provocados por mim pela minha vocação não de político, mas de profeta. Felizmente Deus está começando a me salvar da minha síndrome de profeta brigão. Mas ainda há muito caminho a percorrer...

O que tenho aprendido:
I)O FUNDAMENTO DE UM MINISTÉRIO DE RECONCILIAÇÃO É A “HABITAÇÃO INTERIOR” DA PALAVRA DA RECONCILIAÇÃO. “E pôs dentro de nós a Palavra da Reconciliação” a “logon teis kata-lageis” o Logos da reconciliação” (vs. 19). Deus pôs dentro de nós a palavra viva da reconciliação! O logos, o verbo, a palavra é identificado claramente em João 1 como o próprio Cristo. Então, se Cristo habita em nós pela experiência genuína de conversão, então habita em nós a esperança da reconciliação: “Cristo em vós, esperança da glória;” (Col 1:27). Nas Escrituras Deus é chamado o Deus de paz (Romanos 15:33; 16:20; 1 Coríntios 14:33; 2 Coríntios 13:11, Fp 4:6-9, 1 Tss 5:23; He 13:20). O que é resumido na benção paulina: "Que o Deus de paz seja com todos vós" - Romanos 15:33. Em outro lugar ele afirma: "Porque Deus não é Deus de desordem, mas sim de paz" - 1 Coríntios 14:33. A obra do Messias é de Paz. Ele é o príncipe da paz: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: ... Príncipe da Paz!” (Isaías 9:6). Notemos, contudo, que o aumento da paz está associada ao aumento do governo do príncipe da Paz: “do aumento do seu governo e da paz não haverá fim” (Isaías 9:7). Uma primeira conclusão é que o propósito de Deus para nós é que vivamos em paz uns com os outros. Para o cumprimento de tal propósito, ele nos chamou para um ministério de reconciliação, e pôs dentro de nós a Palavra da Reconciliação que significa a habitação do próprio Cristo dentro de nós, através do Seu Espírito. O aumento do governo de Cristo sobre as nossas vidas, nossas ações e reações, nossos conceitos e pré-conceitos, nossas convicções implicará consequentemente em aumento sem fim da paz. Reconciliação legítima só acontece com o aumento do governo de Cristo sobre as nossas vidas.

II)O PRESSUPOSTO DE UM MINISTÉRIO DE RECONCILIAÇÃO É A ORDENAÇÃO DIVINA DA INIMIZADE ENTRE AS OBRAS DA LUZ E AS OBRAS DAS TREVAS. Deus é Deus de Paz. A obra do Messias é de paz. Então de onde vêm os conflitos, quem é o culpado pelos conflitos, quem ordenou os conflitos? Deus ordena o conflito! Alguns fundamentos bíblicos: 1)”No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Disse Deus: Haja luz. E houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas” Gênesis 1:1-2. Na bíblia trevas e luz não são apenas conceitos materiais, mas sobretudo espirituais (conf. Isaías 9:1-2 e 1 João 1:5), 2) “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela” Gênesis 3:15, 3) Em 2 Coríntios 6:14 Paulo faz uma pergunta retórica: “que comunhão tem a luz com as trevas”? A resposta é óbvia: nenhuma, 4) Em Efésios 5:11 Paulo diz: “Não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as”.
“Já a partir de Gênesis 3, o conflito é o verdadeiro drama da história bíblica. A serpente mente e acusa Deus de esconder de Eva o bem maior – a possibilidade de ser como Deus. Caim mata seu irmão Abel. Os filhos de Jacó traem seu irmão José. Os filhos de Israel se queixam de Moisés e de Deus, atribuindo a ambos más intenções. Moisés em resposta, é tentado a abrir mão da função que Deus lhe dera, em vez de ser perseverante na liderança do povo no deserto. Davi, perseguido e caçado por Saul, enfrenta irresistível tentação da vingança” (op.cit. 77). Os amalequitas queimam a cidade de Ziclague e levam cativas as mulheres, os filhos e as filhas do povo de Deus; ao que esses se voltam contra o líder Davi e falam em apedrejá-lo: “E Davi muito se angustiou porque o povo falava de apedrejá-lo, porque o ânimo de todo o povo estava em amargura cada um por causa dos seus filhos e de suas filhas; todavia, Davi se esforçou no Senhor, seu Deus” (1 Samuel 30:6). Em outras palavras amarguras, ressentimentos e conflitos pessoais são muitas vezes extrapolados para conflitos com o líder.
A obra de redenção do messias é uma obra de conflito. “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;” Mateus 10:34. O conflito e a inimizade ordenados por Deus e trazidos pelo Messias são o conflito e a inimizade entre a luz e as trevas, entre as obras da luz e as obras das trevas. É por isso que o profeta Isaías escreveu: “Os ímpios não tem paz, diz o Senhor” (Isaías 48:22, 57:21).
De onde então vê os conflitos dentre da igreja, entre filhos de Deus, entre irmãos em Cristo, membros da família de Deus? Exatamente da tentativa de juntar novamente o que Deus separou, de juntar trevas com luz, novamente. De, vivermos para Deus, mas ainda praticarmos as obras das trevas: “Donde vêm as guerras e contentas entre vós? Porventura, não vêm disto, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?” Tiago 4:1. Quando um filho de Deus pratica a obra das trevas, ali se estabelece o conflito. Quando um filho de Deus age como filho das trevas não há paz; não pode haver paz! Uma segunda conclusão é que Deus fez separação entre as obras da luz e as obras das trevas, Deus ordenou o conflito e a inimizade entre a luz e as trevas. Não há comunhão possível entre as obras das trevas e as obras da luz. Por isso os filhos da luz não podem ser coniventes com as obras das trevas antes, porém, condená-las. Deus fez separação entre a luz e as trevas, não as ajuntemos novamente!

III)O FUNCIONAMENTO DE UM MINISTÉRIO DE RECONCILIAÇÃO DEPENDE DE UMA VERDADEIRA CONTRIÇÃO. “Integridade não é sinônimo de uma vida sem pecado, mas de uma vida que reage corretamente ao pecado; de uma vida em constante arrependimento dos seus pecados” afirmou Russell Shed em Foz do Iguaçu. A reconciliação entre os homens tem seu padrão na reconciliação entre o homem e Deus, é o que ensina os dois textos citados e em referência cruzada: 2 Coríntios 5:17-21 e Mateus 5:23-24. E se a reconciliação entre o homem e Deus tem no arrependimento, na contrição a sua base e pressuposto podemos afirmar que só há verdadeira reconciliação onde há verdadeira contrição. E é por isso que métodos jurídicos, políticos e corporativos de arbitragem, de negociação, de mediação e de solução de conflitos não são adequados para a igreja do Senhor (conf. 1 Coríntios 6), porque esses modelos não levam em conta o pecado por trás dos conflitos e porque esses modelos tendem a voltar o seu foco apenas para a solução imediata do conflito, em vez de olhar mais fundo para a necessária transformação das pessoas e dos relacionamentos. É por isso que precisamos abraçar a teoria e a prática bíblica para a solução de conflitos ao contrário de nos deixarmos cooptar por métodos meramente humanos. Precisamos sim de uma sabedoria que vem do alto que é em primeiro lugar pura, e depois pacífica (Tiago 3:17-18). Uma terceira conclusão é que só há verdadeira paz, só pode haver genuína reconciliação quando há também verdadeira contrição, arrependimento e disposição de mudança de atitude. Onde há falso arrependimento, haverá também falso perdão e portanto falsa reconciliação, falsa paz! A reconciliação genuína só é possível à partir da sabedoria do alto que é em primeiro lugar pura (santificação) e depois é pacífica (reconciliação).
IV)MINISTRAR RECONCILIAÇÃO É FAZER PARTE DA SOLUÇÃO E NÃO DO CONFLITO. A grande lição que podemos aprender em Atos 6:1-7, a instituição dos diáconos, é que os sete nomes dos eleitos são nomes gregos. E a murmuração partiu dos gregos contra os hebreus. A murmuração tinha uma “justa razão de ser”: as viúvas gregas eram desprezadas no ministério cotidiano. Ordinariamente a murmuração e o conflito tem suas “boas e justas” razões! Mas o que aprendemos é que os sete deixaram de firmar-se em suas boas e justas razões para abraçar as razões de Deus, e por isso eles deixaram de fazer parte do grupo do problema e do conflito e passaram a fazer parte do grupo da solução. Uma quarta conclusão é que só podemos ministrar reconciliação se fazemos parte da solução e não do problema, se o nosso foco não é criar conflitos, mas solucioná-los biblicamente.

CONCLUSÃO: Como igreja somos chamados a viver em paz uns com os outros, em relacionamentos sadios, a enfrentar e a solucionar biblicamente os conflitos, a ministrar reconciliação. E, contudo, nem toda a reconciliação, nem toda a paz interpessoal é desejável, é possível, e se encaixa nos propósitos divinos. É o que veremos na segunda reflexão: MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO: DIVERGÊNCIA.

Comentários

Nenhum comentário foi enviado.

Enviar Comentário

Por favor, entre para enviar comentários.

Avaliações

Avaliações estão disponíveis somente para membros.

Por favor, entre ou registre-se para avaliar.

Nenhuma Avaliação enviada.
Tempo de renderização: 0.05 segundos
10,738,714 visitas únicas