Brian Kibuuka: “Mas foi só uma oferta!”: a corrupção ativa e passiva no ministério pastoral-profético

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Brian Kibuuka

A Bíblia ensina sobre dar e receber: eis um fato!

A árvore do conhecimento do bem e do mal era uma árvore desejável, pois ela dava entendimento (Gênesis 3.6). Deus resolveu dar cabo de toda a carne por causa da iniquidade (Gênesis 6.13). Abrão questionou ao Senhor o que Ele daria para cumprir a sua promessa, uma vez que ele continuava sem filhos e o seu herdeiro era o damasceno Eliézer (Gênesis 15.2). Sarai reclamou que Deus a impedira de dar filhos, e deu a Abrão a sua serva, para que a partir dela, ele obtivesse herdeiros (Gênesis 16.1-2).

Em todas essas narrativas, a Bíblia ensina que nem tudo o que se recebe é um presente; afinal, nem tudo o que recebemos é bom…

Tais lições bíblicas devem ensinar aos que as leem. Mais ainda: devem instruir aos que pregam as Escrituras. Outro princípio simples: mais bem-aventurado é dar do que receber (Atos 20.35) porque sempre foi um grande risco operar com aquilo que foi recebido porque foi dado, e não conquistado pelo trabalho duro, honesto e condizente com a posição de quem recebe. Acima disso, ainda há outra questão: não se deve receber a glória pelo que não se trabalhou, especialmente quando recebemos a paga de um trabalho que foi feito por outro, e o tal “OUTRO” é Deus…

Labão afirma que daria a Jacó, Raquel, se ele trabalhasse mais sete anos (Gênesis 29.27). Ora: se ele precisou trabalhar, não era uma questão de dar: era de merecer. É o que afirma Hebreus, a respeito da ação generosa dos crentes: “Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos” (Hebreus 6.10). O princípio bíblico é: que o bem seja feito, mas que a retribuição positiva/benéfica venha do Senhor, e não proveniente de recompensas humanas.

O relato bíblico a respeito de Eliseu, Geazi e Naamã ilustra bem essa relação correta/incorreta entre o dar e o receber, no que diz respeito à relação entre os profetas e os poderosos. Naamã, comandante do exército da Síria, dava vitórias ao rei, mas era leproso. Não havia na Síria quem pudesse dar a ele a cura, mas ele recebeu de uma menina israelita uma esperança: em Samaria havia cura pelas mãos do profeta (2 Reis 5.1-3).

Naamã, ao consultar ao rei, recebeu a autorização para estar em Israel (2 Reis 5.4-5); e ele partiu levando dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez peças de roupas. A premissa era e é simples de ser compreendida: se ele porventura recebesse a cura, ele iria recompensar com um pagamento significativo. Se Naamã recompensa, ele não dá, ele paga. E se ele paga, ele não recebe por/de graça: ele compra – logo, quem porventura lhe entrega a cura, não dá: fornece. Não há aqui verdadeira gratidão, porque não há nada de graça na lógica de Naamã – e tal lógica não vingou porque o profeta Eliseu não aceitou ser comprado.

Naamã foi até o profeta, que não tratou com ele diretamente: Eliseu enviou um mensageiro, que deu as instruções para que ele ficasse curado da lepra (2 Reis 5.10). Em um rio cujas águas estavam disponíveis a todos, sete mergulhos gratuitos e de esforço próprio limparam a carne de Naamã.

O homem carregado de ouro, prata e roupas não entendeu a mensagem da graça: ele achou a solução proposta por Eliseu absurda, ele viu como desrespeito o profeta nem aparecer para orar por ele… Ele tinha opiniões e inteligência, mas não conseguia encontrar sentido na linguagem profética do favor, da dádiva (2 Reis 5.11). Os seus servos entenderam a linguagem misericordiosa do conselho de Eliseu e eles, desacostumados a adquirir, acostumados a receber por favor, entenderam a lógica da misericórdia (2 Reis 5.12). E sob a orientação de Eliseu, corrigido e estimulado por esses servos, Naamã recebeu a cura: uma pele como a de uma criança surgiu onde antes havia lepra (2 Reis 5.13).

O comandante, após a cura, voltou ao profeta e pediu que ele recebesse os presentes/pagamentos. Mas um profeta não pode receber por aquilo que não fez, e nem precisa de dinheiro para continuar fazendo o que dele não depende. A cura, a resposta, o poder, veio e vem de Deus! Eliseu despediu a Naamã, e mesmo com a insistência para que ele recebesse o pagamento, o profeta nada aceitou (2 Reis 5.15-16).

Então, Naamã se comprometeu a levar um pouco de terra das cercanias da casa do profeta e a não adorar outros deuses – ele dirigiu a sua gratidão a Deus, o verdadeiro autor da cura – e por isso o profeta o despediu: “vai em paz” (1 Reis 5.19). Mas Geazi desejava receber algo, mentiu, pediu, recebeu a paga por aquilo que não fizera (Naamã deu a ele mais do que ele pediu, mas muito menos do que o profeta receberia como pagamento da cura que o comandante ansiava) – e ainda mais, recebeu uma doença que não tinha: a lepra (2 Reis 5.21-27).

O texto apresenta as duas questões básicas da corrupção eclesiástica. A primeira delas: pagar/comprar com dinheiro profetas/pastores. O fundamento da compra de profetas está na crença de que, diante de alguma questão de difícil solução, basta recorrer a Deus por meio dos homens e mulheres a seu serviço, os quais são, de algum modo, comerciantes da graça de Deus. Está ainda na ideia de que, ao pagá-los, seja antes, seja depois de uma graça, Deus será recompensado de alguma maneira. Ainda mais: é a ideia de que não se deve dever a Deus: basta pagar um profeta, padre, pregador, pastor, rabino, e a vida longe dos seus desígnios será viável. A corrupção eclesiástica, no polo ativo, parte da premissa de que tudo o que se tem ou vier a ter será comprado, e até mesmo a dignidade estará sempre disponível e à venda.

O outro lado, o polo passivo da corrupção eclesiástica, erra ao usurpar o louvor motivado pela ação de Deus, beneficiando-se pessoalmente das ações de gratidão vindas de quem recebeu uma graça. É Deus quem age, libertando, livrando, salvando e curando homens e mulheres. Receber algo por ser arauto, pregoeiro, por fazer orações ou pregações, de forma pessoal e individual, é corrupção: afinal, quem recebe algo por um milagre, está recebendo pelo que não fez, nem operou, mas apenas participou. Por isso Eliseu não aceita a oferta: ele participou daquilo que provocou a cura, mas ele mesmo não curou – foi graça, afinal, impagável!

Receber dinheiro por orações, por pregações, por estudos, pelo que quer que seja, aproveitando-se do desejo de as pessoas pagarem pela bênção de Deus, é sucumbir à corrupção. Quando um ministro do evangelho recebe os seus salários (=sustentos) pelo seu trabalho, não há problema, pois o salário de um obreiro é o sustento digno dado para quem dedica a sua vida à proclamação da Palavra de Deus. Um obreiro não é remunerado pelos efeitos miraculosos da Palavra de Deus, e nem o sustento deve ser sonegado porque os milagres esperados não aconteceram: a razão de toda e qualquer ajuda é o princípio das Escrituras: “o trabalhador é digno do seu salário” (1 Timóteo 5.18). Quando alguém recebe alguma ajuda financeira fora dos princípios bíblicos relacionados ao sustento, especialmente, ofertas substanciais e pessoais dadas em gratidão pelos resultados de uma oração ou ministração, isso é corrupção – afinal, se Deus atendeu à oração ou falou ao coração de alguém, a glória e o louvor são ao/do Senhor: soli Deo gloria.

A ação inescrupulosa motivada pelo desejo de obter riquezas é, por fim, o ápice dessa relação corrupta. Geazi representa o extremo do ponto anterior, o polo passivo da corrupção eclesiástica. Ele mente para Naamã (2 Reis 5.22) e mente para Eliseu (2 Reis 5.25-26). Por fim, ele pega a doença que seu corruptor tinha. Geazi é um arquétipo de tantos e tantas que fazem qualquer coisa para conseguirem o que querem.

É nesse nosso tempo, tempo de corrupção sistêmica que atinge até mesmo os homens e as mulheres de Deus, que devemos nos preocupar em pensar a respeito da questão da integridade. Afinal, se vivemos em um contexto em que muitas pessoas com poder econômico estão desejosas de comprarem a bênção de Deus; em um tempo em que homens e mulheres de Deus estão ávidos para receber aquilo que não operaram – o milagre da manifestação da graça – é necessário retornar às Escrituras. É tempo de homens e mulheres que sucumbiram ao extremo de mentirem e perverterem para fazerem negociatas, com o claro objetivo de estarem fortalecidos junto aos poderosos, pararem de enriquecer a partir da iniquidade. Para os nossos dias, maus dias, nada melhor do que lembrar do conselho de Jesus, que a tantos abençoou e a quem nunca ninguém pôde acusar de ter em seus bolsos uma oferta pessoal de gratidão vinda de um admirador: “mais bem-aventurado é dar do que receber”.

Nem tudo o que recebemos é bom. Nem tudo o que damos, perdura. Que saibamos, portanto, estabelecer as diferenças entre a dignidade e a corrupção. Assim, será possível extirpar a lepra dos nossos dias: chamar de oferta o que é, na verdade, corrupção – algo que, se não é ilegal, é certamente imoral e antibíblico.

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Pai de Aimée de Assis-Kibuuka e marido da Pra. Edeny Silva de Assis Kibuuka, o autor é pastor da Igreja Batista do Jardim Joari, Bacharel em Português-Grego pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013), Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano do Rio de Janeiro (2002), Bacharel em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo (2009), Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2012) e Mestre em Letras (Letras Clássicas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2014). Atualmente, é Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense e parte da equipe do banco de dados Eurykleia, da Universidade de Paris e do ANHIMA/EHESS (https://eurykleia.hypotheses.org/liste-des-participants).