Entrevista com Pr. Fausto Vasconcelos – “A autonomia da igreja local é o assunto do momento no mundo batista hoje”

faustoeesposa
“A autonomia da igreja local é o assunto do momento no mundo batista hoje”

Entrevista com Fausto Aguiar de Vasconcelos
Diretor da Divisão de Missão, Evangelização e Reflexão Teológica da Aliança Batista Mundial

OJB – Após 20 anos como pastor da PIB do Rio, como foi assumir o setor de evangelização da Aliança Batista Mundial?
FV – A ABM me ligou para dirigir duas divisões, a divisão de evangelização e educação e a outra, a divisão de estudos e pesquisas. Estudamos um plano para colocar as duas divisões em uma só, o que resultou na divisão sobre missão, evangelização e reflexão teológica. Missão no singular, não missões, porque o que se está pensando é na missão integral da igreja,

OJB – Como está indo o trabalho atualmente? Ainda está em fase de estruturação?
FV – A própria Aliança passou por uma fase de profunda reestruturação, que culminou também com o congresso no Havaí do ano passado. Uma nova divisão veio à tona, a divisão de liberdade e justiça. Até o ano passado ela era uma comissão de uma das duas minhas ex-divisões, então passou a ser uma divisão e o primeiro diretor é um brasileiro, o pastor Raimundo César Barreto, de Salvador, na Bahia. Ele está cuidando dessa área. que anteriormente era apenas uma comissão, mas hoje é uma divisão. Todo esse processo está sendo trabalhado, estamos caminhando bem.

OJB – A impressão que se tem é que a ABM fica muito distante do contato com a realidade da vida comum das igrejas em geral. É isso mesmo ou ela está mais presente do que se pode perceber?
FV – Pode ser que a ABM ainda não esteja tão presente quanto desejamos. O Secretário Geral, por exemplo, tem esse grande sentimento, no sentido de que tudo que fazemos aqui tem de visar a igreja local. Por conta disso, pela primeira vez na história recente cada divisão, especialmente a minha e a do pastor Raimundo, está oferecendo sugestões práticas ou apenas ideias. Mas, na realidade, nós dependemos basicamente das convenções locais que cooperam conosco.

OJB – As relações com as convenções do nas diversas partes do mundo são satisfatórias?

FV – Sim, a relação é muito boa, sem nenhum problema. Nós temos hoje 221 convenções batistas em 120 países, que cooperam com a ABM. A membresia em termos de batistas de igrejas locais está em torno de 49 milhões ,em cerca de 178 mil igrejas batistas locais, que através das convenções cooperam com a ABM. A Aliança tem seis braços regionais: a UBLA (União Batista Latino-Americana), a Federação Batista Europeia, a fraternidade batista caribenha, a fraternidade batista da África, a Federação batista Ásia e Pacífico e a Fraternidade Batista Norte Americana.
OJB – Como a Aliança sobrevive? Qual a sua principal fonte de receita?

FV – Nossa fonte principal vem das convenções cooperantes, em vários níveis de participação. Há doadores particulares, universidades colégios, e também um outro grupo de parceiros globais. É um conjunto de recursos, mais os membros cooperantes, que são 221 convenções que constituem um grupo principal muito forte.

OJB – Qual a área mais promissora em termos de evangelização no mundo hoje?

FV – Quando a Aliança foi organizada em Julho de 1905, 80% da força cristã estava no hemisfério Norte. Hoje essa porcentagem se inverteu. A Federação Batista Europeia tem 48 convenções cooperantes, mas ela representa 2% da população batista que coopera com a ABM. A Fraternidade Africana que tem 58 convenções, portanto só 10 convenções a mais, representa 22% da membresia da ABM, então tem 10 convenções a mais, mas a proporção é extraordinariamente grande em relação à Europa. O chamado Sul Global, que pega América Latina, África, Pacífico, Ásia, tem demonstrado uma pujança fora do comum. Do ponto de vista da proporção númérica, os EUA continuam à frente como o país que mais envia missionários, em número de missionários, mas na proporção população do país/número de missionários, a Coréia está na frente. O Brasil é muito respeitado, pela visão missionária e por estar em 65 países hoje.

OJB – Os batistas brasileiros, depois dos EUA, é que fazem o trabalho missionário mais forte no mundo hoje?
FV – EUA, Coréia e Brasil, não podemos esquecer também dos ingleses na sua Missão, têm um alcance muito grande, mas nós brasileiros estamos entre os três ou quatro de maior expressão no mundo. Estive em Nagaland, no nordeste da Índia, conversando com o diretor do movimento missionário do conselho batista de Nagaland, e ele disse que eles possuem os recursos humanos mas não têm tido a penetração que gostaríamos. É uma força missionária tremenda, mas falta uma infra-estrutura que o Brasil tem, de apoio, de envio, de sustento, de preparo que eles ainda não tem.

OJB – A ABM tem como prover condições para essas convenções que têm a matéria-prima mas não a estrutura?
FV – Não financeiras, pois não teríamos como fazê-lo de forma adequada, mas o slogan da ABM é a sua rede de conexão com o mundo, isto é, a nossa tentativa é colocar convenção com convenção e ver se entre elas se chega por exemplo a esse tipo de parceria. Nesse sentido sim, ela procura fazer isso, isto é, ser uma espécie de rede de conexão entre as 221 convenções que cooperam com ela.

JB – OJB publicou recentemente um manifesto sobre a pedofilia. Esse assunto preocupa de modo particular a ABM?

FAUSTO – Na área da comissão de ética cristã, por exemplo, a Aliança está muito sintonizada com o que acontece no mundo, e todo e qualquer manifesto oficial da Aliança vem da área do Secretário Geral. Tem havido situações em que a convenção local nos fala que prefere eles mesmos apresentarem alguma coisa nesse sentido, pois a convenção local tem mais visão do que está acontecendo.
Mas tudo isso faz parte das nossas preocupações, como perseguições, pressões ou repressões, principalmente na área de direitos humanos. O pastor Raimundo tem muita visão, está sempre atento para situações desse tipo. Quando houve aquela matança na Noruega, o Secretário Geral preparou uma carta e mandou para a convenção batista da Noruega. Ela foi amplamente publicada, eles agradeceram muito e disseram que a carta veio fortalecer a posição deles diante da própria sociedade, quer dizer, os batistas não estão alienados com o que está acontecendo.

OJB – Ocupando uma posição de relevo na ABM, existe alguma coisa que o senhor percebe que nós aqui no Brasil poderíamos melhorar?

FV – A CBB tem passado por algumas mudanças estruturais nos últimos quatro a cinco anos. Há um grande respeito por aquilo que estamos fazendo. Certo dia eu estava conversando com um dos nossos líderes da UBLA e ele me disse que se por alguma razão o Brasil não pode estar presente em algum dos nossos eventos, ou a representação é pequena, nós sentimos, porque a presença do Brasil é tão gigantesca que qualquer ausência é sentida imediatamente. O Brasil é um continente batista denominacional. Já demos dois presidentes à ABM. O Brasil está muito bem posicionado, a expectativa é que nós sempre estaremos com uma liderança muito firme aqui na América Latina.

OJB – Existe a Convenção Brasileira e a Convenção Nacional. Do ponto de vista da ABM, há possibilidade de uma reunificação?

FV – Uma possível reunificação não faz parte da pauta da Aliança e não tenho ouvido conversas ou sugestões nesse sentido. Na minha visão, nada impede que as duas trabalhem dentro da sua própria estrutura, do seu perfil, seus planos, mas que trabalhem juntas, tendo entendimentos múltiplos e diálogos produtivos. Seria uma força muito grande, uma força batista brasileira com as duas convenções trabalhando em projetos comuns. Cheguei até a pensar, embora nunca tenha conversado com ninguém a respeito, em criar uma espécie de federação batista brasileira em que todos os batistas do Brasil, inclusive a CIB (convenção de igrejas batistas independentes), e talvez outros grupos batistas, a cada três anos tivéssemos um grande congresso dos batistas brasileiros com objetivos de inspiração e encorajamento.

OJB – A ABM apoiaria esse tipo de trabalho?

FV – Eu nunca compartilhei essa ideia, mas sem dúvida alguma a ABM apoiaria, eu não tenho dúvidas, pois seria uma forma dela ver uma força batista desse porte aqui no Brasil, bem unida e projetando muita liderança. Às vezes eu sonho com isso, uma federação batista brasileira, um grande congresso dos batistas do Brasil, todos saem cada um na sua convenção, sem problemas, temos estruturas diferentes, mas vamos trabalhar todos juntos, motivados, encorajados mutuamente falando. Acredito que haja um potencial para ser uma força muito grande, juntas cada força dos batistas para fins de cooperação, mas isso é apenas uma ideia que eu tenho no meu coração.

OJB – Quais são as perspectivas do trabalho na sua divisão nos próximos anos?

FAUSTO – A perspectiva maior que foi aprovada pela ABM é uma ênfase neste quinquênio, porque a ABM trabalha em quinquênios. Então, de 2010 a 2015, na África do Sul, em cima do tema “Jesus o pão da vida”, com uma mobilização evangelizadora através das convenções que cooperam com a ABM levantando três aspectos: o poder do Espírito Santo, o mandado da evangelização e a missão holística da igreja.
Tenho sentido no mundo todo que é o assunto autonomia da igreja local tem uma importância vital.
Houve um congresso de eclesiologia batista, na Alemanha quatro anos atrás, em que o assunto principal foi “A autonomia da igreja local”. Do ponto de vista , a autonomia da igreja local é isso mesmo que nós dizemos? Ou nós temos uma visão mais política do ponto de vista histórico, transposta para cima da visão eclesiástica?
Parece talvez uma coisa , mas aonde você vai, você encontra isso. Eu estive na Índia há três meses e nós ficamos conversando cinco horas com os pastores. Eles começaram a falar que precisávamos discutir sobre esse assunto. Eu estava esperando que o debate fosse ser mais em termos de assuntos teológicos, mas eles entraram em assuntos eminentemente práticos.

OJB – Com relação à Copa do Mundo e às Olimpíadas, a ABM alguma estratégia, no caso, para o Brasil nesse período?

FV – O que a ABM procura fazer é dar apoio aos seus membros cooperantes com as convenções. Então será feita da nossa parte uma consulta à CBB e à CBN para saber o que eles pretendem fazer dentro do Brasil e em que a áreas ou aspectos a Aliança pode cooperar. Em 2007, houve a Copa Mundial de Críquete no Caribe. Algumas convenções de lá resolveram fazer um grande projeto evangelizador, então vieram a mim perguntando se nós podíamos ajudar, e eu disse que poderíamos e perguntei o que eles tinham em mente. Eles disseram que gostariam de distribuir águas para os atletas com uma garrafa escrito “Jesus Cristo,água da vida”. A ABM patrocinou essas garrafas, a ideia veio deles e nós apoiamos, pois a nossa ideia é apoiar aquilo que as convenções locais estão fazendo, porque elas é que tem a ideia do contexto imediato. Então o que nós podemos fazer é apoiar os batistas do Brasil naquilo que for possível em projetos dentro das Olimpíadas, que segundo os batistas do Brasil, sejam os mais relevantes para a situação do Brasil, Estamos abertos para isso, nós sempre trabalhamos a partir de propostas que venham do campo para nós.

Matéria extraída do Jornal Batista

http://www.adiberj.org/portal/2011/12/29/entrevista-com-pr-fauto-vasconcelos/

3 comentários

  • Eduardo Jorge Ganem

    Prezados , Deus os abençoe ricamente com toda sorte de bençãos.
    Meu comentário não será muito simpático. Mas ao ler este artigo, fiquei pensando em tantas instituições, tantas siglas , tantos cargos, tantos diretores e gerentes e supervisores e …………
    me veio a pergunta, se todos, JMM, JMN, JME, lutam por missões, porque não estruturar uma só organização para administrar Missões, adequando a necessidade de missionários com seus chamados específicos para a àrea necessária: se mundiais, se investe mais ai, se nacionais, aqui, se estaduais, no devido município etc. Penso que se economizaria muito dinheiro, teriámos menos burocracia e as igrejas, muitas delas não ficariam exauridas se perguntando o porque de tantos cargos nas instituições religiosas. È apenas uma reflexão. Abraços fraternos.

  • Valmir Pinheiro Vieira-Pr.

    AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL: ORDENANÇA DO BATISMO OFICIADA POR MEMBROS É PROCEDENTE?

    Algumas igrejas contemporâneas, quer sejam dos nossos ‘arraiais’, e de outros ‘territórios’ representadas por seus líderes, buscam inovações que surpreendem a cristãos e diversos grupos evangélicos.
    Fiquei perplexo em ver a Igreja Batista do Recreio, realizando vários batismos através de membros líderes de suas células. Suponho que também existe outras com tais práticas.
    Qual o motivo da minha ponderação? É que aprendi que o ofício do batismo, foi sempre ministrado por um pastor ou em casos de extrema necessidade, algum líder autorizado pela grei. De semelhante maneira,
    em locais distantes, quando não houver aquele ou aquela que foi chamado para tal tarefa.
    A questão, é que em nosso meio batista, alguns ‘contra-pesos’ são incluídos em nossas práticas , que mesmo estranhas, sempre terão seus defensores.
    Neste sentido, cada vez mais, nós batistas, vamos jogando ladeira abaixo, a Teoria da Identidade Batista. Ou eu estou errado? A verdade é que igrejas grandes e pequenas, estão “pisando na bola”. Aliás, tem muitos ministros que de seus púlpitos enaltencem e promovem seus times de futebol.
    Alguém perguntará: E daí? Pode, mas não deve. Púlpito não é local para tal propagação.
    Quanto à prática do batismo, o não habilitado poderá realizar, quando houver ausência dos credenciados para aplicar tal ordenança.
    Por fim, parece-nos que a tal autonomia da igreja, gera constantes dissonâncias que em suas práticas batistas, cada uma deseja falar sua própria língua em descompasso com as demais irmãs.

    Valmir Pinheiro Vieira-Pr.IGREJA BATISTA DA ESPERANÇA-Cooperador
    Titular: Agnaldo Vieira – Centro – Rio de Janeiro
    —————————————————————–

  • Valmir Pinheiro Vieira-Pr.

    AUTONOMIA DA IGREJA: DELIBERAÇÕES INJUSTAS

    Reportando ao tema ‘controverso’ sobre resoluções que aconteceram e acontecem, em sua maioria nas igrejas pequenas, onde grupos familiares,
    facções de “poder” econômico, tribo de amigos, vices-presidentes, “partidos” inter-familiares, e intocáveis infratores pecaminosos, transformam-se em opositores do ministério pastoral e diversas deliberações injustas.
    Quando o líder tenta “arrumar a casa”. Tais grupos, querem apenas impor suas vontades.
    Neste esteio, surgem diversas implicações prejudiciais ao pastorado local.
    É lamentável que os citados grupos, não querem ouvir mensagens contra os pecados. Os membros que dão mau testemunho, afetam o crescimento da igreja e começam a embaraçar as tarefas do pastor.
    Em meus quase 30 anos de ministério pastoral, em uma das igrejas por mim pastoreada, fui obrigado a declarar aos “mandões” que ‘eu fui convidado pela igreja para liderar, e não ser liderado’. Esquecem-se que o Senhor deu aos discípulos poder para anunciar e proclamar as maravilhas do Reino, mas não
    para mandarem na igreja e seus pastores.
    Em nome da Autonomia da Igreja Local, o bloco dos ‘travestidos de crentes’, levam a igreja a cometerem absurdos, principalmente nos bastidores, preparando a mala do pastor e outros ‘articulismos’.
    O cenário das injustiças contra o pastor começam a surgir de várias maneiras.
    Sutilmente, começam a se reunirem em suas casas para iniciar uma desestabilização do líder da igreja, pois, acham-se ameaçados por suas transgressões. Então, as vítimas da ignorância caem nessa armadilha de concordarem com o bloco contrário ao pastor da igreja, visando a troca de pastorado.
    Esses grupos, quando conseguem “fazer a cabeça da igreja” usam como desculpas, o pressuposto da autonomia da igreja local para decisões injustas, e às vezes não observadas pela própria igreja que foi induzida ao erro.
    Além disso, deliberam verbas para retiros e lazer, mas não socorrem seus membros carentes de ajuda alimentar e financeira. Estão em construção, mas não ajudam alguns em situações de desemprego, separações conjugais com um dos lados necessitando de socorro. Quando fazem beneficência a alguma família, dão somente o necessário para dois ou três dias. Algumas cestinhas básica não suprem a realidade. Em algumas ocasiões, tais ‘articuladores’ fazem um orçamento tão estreito, que não socorrem ‘aos domésticos na fé’, viúvas, etc., inclusive um valor de sustento pastoral três vezes menor que o sustento de suas casas. Podem me contestar, mas esta é a verdade, ou eu estou errado? Acresça-se também, desligamentos indevidos de membros, sem conhecerem o mérito da questão.
    Creio que nossa Denominação deve se debruçar em REFORMAR A
    AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL que aqui, ali e acolá, tem prejudicado muitíssimo parte do Povo de Deus.

    Valmir Pinheiro Vieira-Pr. – IGREJA BATISTA DA ESPERANÇA-Cooperador
    Titular: Agnaldo Vieira – centro – Rio de Janeiro.

    ************************************************************